Há uns dias surgiu em conversa o tema ‘Pó’. O que é, afinal, o pó? Esse maldito que nos entra pelas janelas e nos condena a tardes de limpeza? Poluição das ruas, até aqui tudo bem. O escape dos carros, as obras à porta do nosso prédio, o camião do lixo, o que trazemos para casa nos sapatos. Ok. Mas o que é realmente o pó? Sim, porque todos sabemos que o pó não vem só das ruas. Todos sabemos que se deixarmos uma casa fechada durante um tempo indeterminado, eis que está cheia de pó… e a rua não lhe teve acesso. Então, muito bruta e frontalmente como o fizeram comigo, digo-vos: o pó são restos mortos da nossa pele, animais mortos já desfeitos e excrementos de ácaros. Pensem bem se querem mesmo adiar a limpeza do "pó" em vossa casa.
Em vez de conversar com os meus botões, rir de mim para comigo e divagar sobre assuntos e episódios substancialmente inúteis que de outra forma esqueceria pouco tempo depois, escrevo e eternizo enquanto bebo um chá. Frio, mas chá. No Inverno já será quentinho.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Banquete Ambulante
Manhã solarenga. Descia eu toda bem disposta para o pequeno-almoço, quando reparo que está uma mosca morta a percorrer o parapeito da janela da cozinha. Eu não acredito em fantasmas, muito menos de insectos, mas aquele corpo preto e ressequido, com apenas uma asa já carcomida, não deixava muitas dúvidas acerca do estado de saúde da pobre desventurada. Reparei noutro facto curioso: estava a andar de barriga para cima. Aproximei-me para ver melhor, e – mistério resolvido! – estava uma formiguinha escondida debaixo do (agora) gigante e morto corpo da mosca. Ah, grande banquete! - pensei enquanto me nauseava. E ali fiquei, a observar e a admirar o esforço da formiga, lembrando-me das histórias que me contavam quando eu era pequenina sobre esses bichinhos trabalhadores. E que trabalho…! Lá ia ela, a muito custo, pela borda, a ser ultrapassada pelas coleguinhas apressadas. De vez em quando parava alguma – “Olha esta a afiambrar-se ao petisco!”, mas logo seguia o seu caminho. Um descuido, e a mosca quase caía do parapeito. Mas eis que, qual super-homem, a pequena formiga triplica o seu esforço e puxa-a de novo para cima, afastando-se mais da borda a fim de evitar a repetição do incidente. E, lenta, continuava. Em busca do seu destino, reparei que as outras formigas se dirigiam para o jardim pela frincha da janela (praticamente fechada). Frincha pela qual cabia uma formiga, mas não uma mosca.
Curiosa, mantive-me na observação. Chegando à tão desejada meta, a coitada bem que tentava subir com o seu festim e puxá-lo para dentro da mínima abertura, mas sem qualquer sucesso. Podia sentir na pele a sua aflição e frustração por tanto trabalho deitado ao lixo. E voltou a descer, como que a recuperar forças e a arquitectar uma solução para este problema. A pequena barriguinha já devia estar a dar horas, literalmente falando. Com pena dela, abri-lhe um bocado a janela. E aí, com a ajuda de mais duas formigas (como é que se diz por aí, “a união faz a força”?) vai uuuum, vai doooois e vai.. TRÊS! Já a finada está no caixilho da janela. Fitando com gozo, tento perceber os movimentos seguintes, já menos visíveis. Tudo o que consigo avistar é uma bola preta e peluda, com uma asa rendada, a agitar-se freneticamente sem sair do mesmo sítio. Ora desaparecia, ora voltava ao meu campo de visão, num frenesim. Adivinhava a confusão que corria na cabeça da formiga, sobre “como passar para o lado de lá do caixilho, e chegar finalmente ao jardim”. Entretida com este pensamento, e tendo o cuidado de não fechar distraidamente a janela esmagando num microssegundo horas de esforço e dedicação, fui tirar o meu café. “Esta natureza, realmente…!” Quando voltei a olhar, já nem sinais de mosca nem formiga, e fechei a janela para começar um novo dia.
Escrevo isto com uma mosca francamente irritante à minha volta, que não desiste de zumbir aos meus ouvidos e maçar-me de morte. Subitamente, desejo-lhe um destino tão feliz como o que acabara de assistir.
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
O sítio das coisas
Acho que posso estar segura quando digo que em quase todas as casas há uma pequena caixinha, tão pequena que achamos que não serve para nada; e quando, curiosos, a abrimos, eis-nos perante um clip, uma pilha, e uma moeda de 5 escudos. Ou um bocadinho de madeira partida, oriunda de um móvel qualquer (“para depois colar…”), um punaise, e um cadeado sem chave, ou uma pequena chave de um diário, que já não tem cadeado nem diário. Quer dizer, hão de estar por aí, algures…porque a casa não tem buracos. E então guarda-se. Desorganização? Provavelmente. Mas onde é que se guarda este tipo de coisas solitárias e pequeninas?! Afinal a “caixinha das coisas” tem utilidade: a de guardar coisas inúteis.
Nostalgia Falhada
Já tenho saudades do Inverno. Sim, aqueles dias que todos vocês conhecem, que parecem noites de tão escuros. Dias de chuva, frios como sei lá, em que apetece qualquer coisa excepto sair de casa. Mas sabe tão bem por aquela camisola de lã, acender só o candeeiro de luz amarela e aconchegante, ir buscar uma chávena de chá ou chocolate quente e umas bolachinhas com manteiga, por tudo num tabuleiro e levar para a sala para comer…sim, em frente à televisão! Claro, com a manta e o aquecedor a óleo ao lado. É todo um acto pelo qual nos devíamos sentir culpados, mas com um tempo desses não há quem aguente… parece que não há mais nada para fazer, e então o nosso sentimento de culpa desaparece num segundo.
Aqui há uns dias, em pleno Setembro, choveu a tarde toda, e senti a nostalgia desses hábitos invernais. Então preparei tudo tal e qual (excepto a manta e o aquecedor, e provavelmente em vez do chá tinha Ice Tea), aconcheguei-me no sofá, liguei a televisão, mas… estava sem sinal por causa da chuva. Que tristeza, aquele ecrã azul a fazer a contagem decrescente a partir dos 5 minutos, em contraste com o cinzento do céu lá fora. E, subitamente, eis que surgem outras coisas para fazer… mas só depois do lanche, claro.
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