Manhã solarenga. Descia eu toda bem disposta para o pequeno-almoço, quando reparo que está uma mosca morta a percorrer o parapeito da janela da cozinha. Eu não acredito em fantasmas, muito menos de insectos, mas aquele corpo preto e ressequido, com apenas uma asa já carcomida, não deixava muitas dúvidas acerca do estado de saúde da pobre desventurada. Reparei noutro facto curioso: estava a andar de barriga para cima. Aproximei-me para ver melhor, e – mistério resolvido! – estava uma formiguinha escondida debaixo do (agora) gigante e morto corpo da mosca. Ah, grande banquete! - pensei enquanto me nauseava. E ali fiquei, a observar e a admirar o esforço da formiga, lembrando-me das histórias que me contavam quando eu era pequenina sobre esses bichinhos trabalhadores. E que trabalho…! Lá ia ela, a muito custo, pela borda, a ser ultrapassada pelas coleguinhas apressadas. De vez em quando parava alguma – “Olha esta a afiambrar-se ao petisco!”, mas logo seguia o seu caminho. Um descuido, e a mosca quase caía do parapeito. Mas eis que, qual super-homem, a pequena formiga triplica o seu esforço e puxa-a de novo para cima, afastando-se mais da borda a fim de evitar a repetição do incidente. E, lenta, continuava. Em busca do seu destino, reparei que as outras formigas se dirigiam para o jardim pela frincha da janela (praticamente fechada). Frincha pela qual cabia uma formiga, mas não uma mosca.
Curiosa, mantive-me na observação. Chegando à tão desejada meta, a coitada bem que tentava subir com o seu festim e puxá-lo para dentro da mínima abertura, mas sem qualquer sucesso. Podia sentir na pele a sua aflição e frustração por tanto trabalho deitado ao lixo. E voltou a descer, como que a recuperar forças e a arquitectar uma solução para este problema. A pequena barriguinha já devia estar a dar horas, literalmente falando. Com pena dela, abri-lhe um bocado a janela. E aí, com a ajuda de mais duas formigas (como é que se diz por aí, “a união faz a força”?) vai uuuum, vai doooois e vai.. TRÊS! Já a finada está no caixilho da janela. Fitando com gozo, tento perceber os movimentos seguintes, já menos visíveis. Tudo o que consigo avistar é uma bola preta e peluda, com uma asa rendada, a agitar-se freneticamente sem sair do mesmo sítio. Ora desaparecia, ora voltava ao meu campo de visão, num frenesim. Adivinhava a confusão que corria na cabeça da formiga, sobre “como passar para o lado de lá do caixilho, e chegar finalmente ao jardim”. Entretida com este pensamento, e tendo o cuidado de não fechar distraidamente a janela esmagando num microssegundo horas de esforço e dedicação, fui tirar o meu café. “Esta natureza, realmente…!” Quando voltei a olhar, já nem sinais de mosca nem formiga, e fechei a janela para começar um novo dia.
Escrevo isto com uma mosca francamente irritante à minha volta, que não desiste de zumbir aos meus ouvidos e maçar-me de morte. Subitamente, desejo-lhe um destino tão feliz como o que acabara de assistir.

Este está genial!
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