domingo, 2 de outubro de 2011

Aquela Casa


Perguntaram-me como foi viver nesta casa. É uma pergunta difícil de responder em poucas linhas.
Durante 7 anos da nossa vida, a casa, algures na cidade de Santarém, acolheu-nos e viu-nos crescer.
Conhecemos cada canto dela, e cada pormenor imaginado e realizado pela Mãe.
Viver lá…Foi acordar todos os dias e descer, ansiosa, para o pequeno-almoço tomado em família naquela linda cozinha, cujas grandes janelas nos põe entre os verdes do jardim entrelaçados no dourado do sol (e que saudades vou ter daquele cheirinho fresco da manhã, a verdes e flores!). Foi ver crescer cada árvore, cada arbusto e cada canteiro de flores plantados pela minha mãe com tanta dedicação – costumava até dizer que o jardim era a sua segunda casa! Ver crescer o pinheiro que assistiu ao primeiro Natal passado naquela casa. Era um pinheirinho – talvez com os seus 30cm de altura – que quisemos, passado o Natal, plantar no jardim e ver crescer, como já fizera o meu avô na sua quinta em Caminha. Agora está quase do meu tamanho, de suas verdes agulhas contra o alto muro.
E aquela grande sala… sala guardiã de conversas, gargalhadas, leituras, cinemas, amigos, memórias de avós de outrora, e nossas também. O que mudava era o cenário da estação: Nos Invernos a lareira enriquecia-a, e nos Verões o jardim fundia-se-lhe. E que delícia, a brisa do fim da tarde a entrar pelas brancas portadas abertas…!
Viver naquela casa foi, também, crescer entre as correrias do subir e descer das escadas (correrias essas inversamente proporcionais ao nosso crescimento). E por falar em subir… vamos subir um pouco na casa. O que dizer daquele sótão? Era a “casinha de bonecas” onde eu e as minhas irmãs vivíamos. O nosso mundo cor-de-rosa, por onde passaram muitas modas e mudanças, reflectidas naquele sempre mesmo espelho antigo, cor de marfim e de madeira. Decorados com o gosto fino da minha mãe, à inglesa antiga, aqueles três quartos e sala fizeram as nossas delícias – e as das nossas amigas também. Muito tempo lá passamos, nesse espaço que sentíamos como “nosso”, e diferente do resto da casa – era como ter a nossa “casa da árvore”. Lá estudámos, brincámos, vestimo-nos, maquilhámo-nos, saltámos ao som da mais variada música e fizemos as nossas palhaçadas – enfim, crescemos – longe do sossego do resto da casa, apenas debaixo do olhar das janelas envolto no tocar dos sinos da igreja do largo. Janelas essas por onde entrou o sol branco da manhã, o sol dourado da tarde, e o sol avermelhado do poente. Entrou o luar e a luz das estrelas. E até o cinzento melancólico dos tempos de chuva. Mas digo-vos, não há melhor do que janelas viradas para o céu.
Apesar de adorarmos o nosso sótão, sempre invejámos o Quarto da Mãe, onde as árvores e heras do jardim quase que entram pelas janelas dentro, trazendo o seu cheirinho a primavera, e onde o sol pinta a madeira de dourado. Mesmo ao lado, e quase tão bonito, com o mesmo privilégio verde da vista, está o quarto do meu irmão, o único rapaz de cinco filhos. E para trás não fica o escritório, que mistura recordações de muitas vidas, estantes cheias de livros, e muitas gavetas, cada uma com a sua função e com os seus papéis. Gavetas que olham para um pátio de tijoleira rodeado pelo jardim, onde estamos autorizados – em certa medida – a descansar o tempo que quisermos e a apanhar um bocado de sol na espreguiçadeira – como tantas vezes fizemos, sem preocupações, sem horas!
A magia desta casa tocou-nos a nós e aos nossos amigos – estes últimos são os primeiros a suspirar de saudades dela, e dos divertidos e bons momentos que cá passaram connosco, como que parte da família. Que bons tempos esses!
Uma vez li a seguinte frase, não me lembro onde, mas que faz sentido trazer aqui: “ao sair de qualquer lugar, faça-o com a certeza de que poderá voltar”. Talvez não possamos voltar a esta casa… mas àquilo que se passou durante sete anos entre quatro paredes – e que belas paredes! – poderemos sempre voltar, nas nossas memórias. E fá-lo-emos, certamente!

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