"Parti para esta grande aventura. Deixei para trás o sol, as cores, a
alegria e o calor. Os meus amigos, conhecidos e família. Deixei a praia, o
amor, a luz, a boa comida e as horas tardias. Felizmente deixei também a
preguiça. De repente, estou num sítio frio, sem luz natural, onde a pontualidade e o
cedo das coisas é um balde de água fria. Neste sítio toda a gente me é
desconhecida. Cores nem vê-las, e amigos muito menos. Falha-me o fenómeno da
globalização. Mas gosto da neve, do rio e das praças. A cidade é fria, mas
aconchega. Cidade não muito grande, mas grandiosa, e de uma beleza sufocante.
Espero pelo dia em que o sol brilhe, para o ver desfazer-se em tons laranja e
rosados sobre os telhados ainda brancos da neve, para além do rio. Sobre as
pontes e palácios iluminados, montes verdes mas esbranquiçados, carris de
eléctricos, barcos e bicicletas. Bancos de jardim, candeeiros floreados.
Desenganem-se os que leram as primeiras linhas, este sítio é um espanto. Tem o
lado frio e altivo da beleza. Não é uma fotografia com muitas cores, mas quem
não gosta de uma boa fotografia a preto e branco? É mágico. E pouco a pouco,
ganho novos amigos, que dão uma nova cor.. A boa comida ainda hei-de descobrir. E
amor? Já me apaixonei por Budapeste."
Este texto foi escrito nos meus primeiros dias em Budapeste, em pleno inverno. É engraçado olhar para trás agora, e ver como eu via aquela cidade quando lá cheguei. No entretanto a primavera chegou, o sol brilhou, e a cidade saiu à rua. Mudou. Mas sempre com a mesma e sufocante beleza.

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